// Stela Campos – Mustang Bar (2009)

Mustang Bar é o quarto álbum de Stela Campos, trabalho mais visceral e abrasivo de sua carreira, gravado em poucos takes entre Junho e Setembro de 2008. “Acho que o novo trabalho é um divisor de águas; meio que um exorcismo de uma estética garageira-psicodélica que eu ainda não havia tido a chance de mostrar em disco – ou ainda não havia dado prioridade”, explica a própria Stela.

Ouça Mustang Bar:
www.myspace.com/stelacampos
www.tramavirtual.com.br/stela_campos

O foco de Mustang Bar está nas guitarras, na tensão rítmica, não necessariamente dançante ou pesada. Transita entre o rock sessentista, o pop francês, o krautrock, o pós-punk e o tropicalismo dos Mutantes. Há, entretanto, breves pausas para a ponte com o folk etéreo, rico em sutilezas e texturas eletrônicas, predominante no prévio Hotel Continental (2005) e, mais recentemente, no EP Daniel Johnston.

Esse disco teve uma pré-produção caseira intensa: entrou em estúdio com boa parte dos arranjos já definidos – duas demos foram integralmente reaproveitadas. Para recriar e expandir as idéias originais, Stela contou com a parceria dos multiinstrumentistas e co-produtores Clayton Martin (Cidadão Instigado) e Missionário José (que já trabalhou com Lulina, Mombojó, Bonde do Rolê e Sivuca). Maurício Bussab, produtor dos dois últimos álbuns de Stela Campos, contribui com teclados em “Apartamento”.

Mantendo a parceria com o letrista e co-autor Luciano Buarque, Stela acrescenta novos personagens ao seu característico fabulário urbano. Passam pelo balcão do Mustang Bar tipos solitários, diabéticos, insones, etc; protótipos da vida ordinária que bebem com o dinheiro contado, “com a culpa e o remorso/ e os fantasmas do passado”. O título cita um tradicional reduto boêmio do centro do Recife, cidade que abrigou a cantora-compositora paulista na década de 90.

Luciano, aliás, também é responsável pelo democlipe do primeiro single do álbum, “Laura Te Espera Com Uma Arma Na Mão”:

Sobre Stela Campos
Nos anos 90, Stela integrou o cultuado projeto de um disco só Funziona Senza Vapore, formado por ex-integrantes do Fellini. Paralelamente, esteve à frente da guitar band Lara Hanouska, reformada em Recife nos primeiros dias do mangue beat. Durante a longa estadia na cidade, colaborou com os principais nomes da cena, participando, entre outros projetos, da antológica trilha do longa-metragem Baile Perfumado. Seus três primeiros álbuns solos, Céu de Brigadeiro (1999), Fim de Semana (2002) e Hotel Continental (2005), foram aclamados pela crítica nacional. Saiba mais.

FAIXA A FAIXA
Por Stela Campos

Laura Te Espera Com Uma Arma na Mão: não é exatamente uma síntese do disco, mas já antecipa bastante coisa. Nela estão a bateria em primeiro plano, as guitarras estridentes, a tônica psicodélica, sessentista, acrescida de synths new wave. A letra fala de um homem diminuído por uma presença feminina dominadora, ou algo assim.

Brand New Robots: é a faixa mais antiga – foi tocada regularmente durante os shows de Hotel Continental, que já tinha o Clayton Martin na guitarra. Saiu de primeira, portanto – e Missionário José (baixo-guitarra) captou telepaticamente o interlúdio dub. A letra é vagamente inspirada no filme “Eu, Minha Mulher e Minhas Cópias”.

Mustang Bar: a idéia inicial era fazer um disco conceitual, nos moldes de Fim de Semana – partindo desta faixa-título. Dá pra ver que é onde o Luciano Buarque mais exercita sua veia cronista. Mas o projeto foi abortado em favor da tensão garageira, que exigia versos curtos. É o primeiro momento folk rock do disco.

Ligia Hello Kitty: meu filho pedia insistentemente um sorvete de morango da Hello Kitty, então, para acalmar os ânimos, criei essa melodia e uma letra providencial no meio de um congestionamento. Em casa, gravei sobre um sampler samba rock, para não esquecer. Virou a demo oficial – a letra, claro, precisou ser ajustada ao contexto geral.

Le Captaine: finalizada no primeiro dia de estúdio, esta faixa recupera 80% da minha demo caseira, que já era esse mix esquisito de Ladytron lo-fi e pop francês. Fiz a letra sob a fundamental supervisão da franco-canadense Isabelle Decarie, que, para minha sorte, é uma pesquisadora-expert em literatura francesa.

Apartamento: momento mais introspectivo do disco, com um pé em Hotel Continental – assumidamente sombrio, para fugir um pouco da auto-ironia que domina a cena nacional. Maurício Bussab (Bojo) contribui com teclados. No final, adicionei uns synths espaciais para subverter um pouco a estrutura folk original.

Estação de Trem Fantasma: “Apartamento” serve de ponte para outro folk melancólico, que progressivamente vai ganhando elementos até voltar à tônica rock do álbum. O clímax desta virada é o que originalmente batizamos como “Trem Fantasma 2”, convertida por Clayton numa retumbante sessão de riffs+feedbacks.

Supermarket Dreams: fiz essa música em cima de um beat kraut rock. Para a marcação ‘retona’, Clayton sugeriu o baterista Vini, que tinha tocado comigo no debut ao vivo desta canção. Missionário José reformulou o refrão e adicionou ‘bip bips’ fundamentais. A letra parece non sense, mas faz total sentido para mim.

Scaramanga: inspirada no vilão de três mamilos de “O Homem da Pistola de Ouro”. Eu estava com aquela cena da casa dos espelhos na cabeça quando compus este instrumental, baseado num riff de guitarra e um mosaico de teclados a la “Liquid Sky”. A sessão ‘drum hero’ era uma pista sobrando a qual acabamos nos acostumando.

½ Maria: mantra psicodélico concebido numa época em que estávamos escutando muito A Saurceful of Secrets (Pink Floyd), o que explica os slides ‘barrettianos’. Por algum motivo, minha demo caseira saiu com a rotação do violão alterada. Achamos tão legal que usamos como introdução. Foi a última faixa composta para Mustang Bar.

Wasting My Time: originalmente era um lance meio latino, meio new wave. Não estava funcionando no estúdio. Então o Missionário José levou a demo para casa e voltou com essa base kraut noise, ou algo parecido – que considero o momento mais ácido do disco. A letra é um improviso que acabou ficando.

Laura Duvall (lullaby): Espécie de canção epílogo, que amarra o personagem de “Laura Te Espera Com Uma Arma na Mão” com elementos de várias letras, mais explicitamente de “Mustang Bar” e “Estação de Trem Fantasma”. Fiz toda no meu casiotone – e o Clayton adicionou uns ‘robozinhos’ no final.

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