Artistas paulistanos, que traduzem em música uma cidade dividida entre identidade e universalidade, dão as caras na Livraria da Esquina em outubro. A residência é do Numismata – formado por Adalberto Rabelo Filho (guitarra), André Vilela (guitarra), Carlos H. (baixo), Felipe Veiga (bateria), Piero Damiani (vocal, teclados e percussão) e Russo (vocal e percussão) –, que acaba de lançar seu segundo álbum, Chorume. O sexteto recebe Pullovers (dia 8), Monique Maion (15) e Bazar Pamplona (22), sempre a partir das 21h.
Cada noite terá também agitadores culturais de São Paulo nas picapes: respectivamente Alice Coutinho e Ana Carmo, criadoras das festas Bendita! e Domenica; Tatá Aeroplano, músico das bandas Jumbo Elektro e Cérebro Eletrônico; e Katia Abreu e Pamela Leme, aqui da Alavanca.
Chorume, o líquido produzido pela degradação do lixo, virou nome de disco em referência ao processo de produção, acúmulo e descarte tão familiar à vida na metrópole. No caso do Numismata, é o resultado de um caldo sonoro de onde podem sair pós-punk, jazz e mambo – com o samba sempre presente, explícita ou implicitamente. A cidade aparece em letras – “Vejo o sol nascer na Nove de Julho/E o Anhangabaú voltar a se mover/Intermitentemente no escuro” (de “Tanto Céu e essas Pequenas Coisas”) – ou em melodias, como no choro “Anhanguera”, com arranjo de regional.
O primeiro convidado também assume, com todas as letras, o quanto tem de paulista, como parte de uma guinada em sua trajetória. O Pullovers, aos dez anos de carreira no circuito indie, resolveu encarar o desafio de fazer rock’n'roll em português.
Tudo que Eu Sempre Sonhei é seu primeiro álbum totalmente composto no idioma pátrio e já com uma desenvoltura impressionante. As dores do amadurecimento são o tema principal, mas o pano de fundo é São Paulo (e sua dualidade com o Rio de Janeiro, que aparece em “1932″ e “Lição de Casa”). As letras são de Luiz Venâncio, responsável por voz e guitarra, que conversou com Alavanca para contar como os fãs e a própria banda têm encarado os novos rumos musicais do Pullovers. Leia a seguir.
Alavanca – Vocês lançaram o primeiro álbum em português, assumindo as influências brasileiras. É um novo começo? Como é começar de novo depois de dez anos de carreira? Como os fãs mais antigos vêm reagindo?
Luiz Venâncio – Será que é um novo começo? Pode ser. É legal pensar assim. Dá ainda mais vigor pra fazer música. Agora, os fãs mais antigos… Surpreendentemente, tenho revisto nos shows, no meio da maioria que descobriu a banda recentemente, algumas pessoas que eu não via há anos, que quando a banda ainda fazia canções em inglês tinha deixado de acompanhar. É ótimo. E é fácil identificar. É óbvio que são os mais velhos e os mais bêbados.
Quais as maiores dificuldades de compor em português? Além das questões mais técnicas de composição, métrica, prosódia, tem também uma exposição pessoal maior, certo?
É muito bom responder isso. Pela primeira vez na vida eu vi a palavra “prosódia” numa pergunta! E geralmente as pessoas esquecem o quanto a maneira como você pronuncia as sílabas e acentua as palavras é importante. Faça mais entrevistas com a gente, por favor! Quanto à questão da exposição, é relativo. Pode-se criar máscaras mais ou menos próximas do que é a sua intimidade e realidade em português, inglês, ou qualquer língua. É uma opção que se faz a cada canção.
A relação e as diferenças entre São Paulo e Rio de Janeiro estão em algumas das músicas de vocês. Como você vê isso? Qual é a sua relação com o Rio? Tem algum elemento carioca na música da banda?
Minha relação com o Rio é imensamente apaixonada, e acho que isso fica bem claro nas canções. Tive lá momentos importantes, talvez tão doidos e intensos quanto a cidade… Mas acho que também fica claro que o meu lugar, e estendo isso pros outros Pullovers (que mesmo quando não são de São Paulo, como o Habacuque – de Brasília – e o Gustavo, do interior do estado) é São Paulo. Não é uma questão de bairrismo e de dizer “minha cidade é o melhor lugar do mundo”. Deixamos nossa identidade muito clara nas canções, mas mesmo que não deixássemos, acho que se perceberia facilmente que São Paulo tá na nossa maneira de falar, de pensar, de agir e de fazer música.
O Pullovers está com nova formação. Comente um pouco essas mudanças e o que podemos esperar do show na Livraria da Esquina. Por falar nisso, vocês conhecem o trabalho do Numismata?
Gosto muito do trabalho do Numismata. De verdade, sem política da boa vizinhança. Acho que são precursores de muito do que há na tal “nova música brasileira”, com uma qualidade artística enorme, tão grande quanto o reconhecimento merecido pela banda. Espero que com o disco novo muito mais gente possa ter o prazer de ouvir. Quanto à nós, estamos muito felizes com o “time” que a gente conseguiu montar (usando o recurso véio das metáforas futebolísticas). E acho que isso é nítido pra quem assiste aos shows, que geralmente comenta que nunca houve tanto entrosamento quanto agora. Somos eu (Luiz) cantando, Bruno Serroni no baixo e cello, Gustavo Beber na batera, Habacuque Lima (também do Ludov) na guitarra e os irmãos Lorenzetti, Angelo no violão e Rodrigo nos teclados.
Temporada do Numismata na Livraria da Esquina
Dias 8 (Pullovers), 15 (Monique Maion) e 22 de outubro (Bazar Pamplona), a partir das 21h
Discotecagem: Alice Coutinho e Ana Carmo (8); Tatá Aeroplano (15); Katia Abreu e Pamela Leme (22)
Rua do Bosque, 1.254 – Barra Funda – São Paulo, SP
R$ 10 (aceita todos os cartões)
Estacionamento conveniado ao lado (R$ 10)
(11) 3392-3089
www.lastfm.com.br/event/1243031


Fotos: Fernando Angulo (Numismata) e Allard (Pullovers)
[...] vocalista, guitarrista e compositor do Numismata. Ele fala sobre o disco novo, Chorume, e sobre a temporada que começa nesta quinta-feira (dia 8), na Livraria da Esquina, com abertura dos Pullovers. Tags: [...]