_DIÁRIO #5
Porto Alegre, 20 de agosto de 2009
Por Alexandre Kumpinski
Antigamente este diário contava com um cabeçalho superbem transado pelas meninas da Alavanca que apresentava o que viriam a ser estes meus relatos. Ele acabava pontuando: “O músico promete atualizações quinzenais”. Pois o músico prometeu e não cumpriu, rapazeada! Já se passaram 17 dias desde a última publicação. Mas eis que pinta aqui o nosso diário #5, atrasado e com o nariz vermelho. De frio, que aqui ninguém é palhaço! E não à toa, vamos falar sobre prazos, atrasos, promessas não cumpridas e úlceras em desca(n)so.
Desde que começamos a gravar esse nosso primeiro disco, já devemos ter previsto o lançamento dele pra umas 5 datas diferentes. De março pra maio pra julho pra setembro, até que a gente foi percebendo que sabíamos pouco sobre o que é lançar um álbum. Por mais que a gente tenha feito previsões lógicas baseadas no que ainda precisava ser feito pra que tudo se aprontasse direitinho, nunca chegamos a prever os imprevistos. E, no nosso caso, os imprevistos têm vindo aos borbotões. O alvo da maioria deles, como não poderia ser diferente, é o nosso inacabável Fruet! Foi tendinite no ombro, pulso estourado, 14 amidalites, cirurgia no lado de baixo do equador, insônia transitória e calvície repentina. Sem falar no computador que ficou com saudade dele durante alguma das recuperações e resolveu se emperiquitar também. Aí foi comprar computador novo, instalar tudo que é programa e configurar tudo nos trinques pra funfar a mil nas mixagens. “Que zica” – filosofa o Fruet, com o braço esquerdo na tipóia e munhequeira no pulso direito. “Foda” – eu respondo já livre da tornozeleira de velcro enquanto penso mais uma vez em como seria bom se a gente pudesse dedicar todo o nosso tempo só pra esse disco, esquecendo faculdade, dinheiro e essa inconfundível condição humana.
A todas essas, os cronogramas vão deslizando por entre as páginas das nossas agendinhas de bolso. Sem dramas, as mixagens já começaram, mas ainda não engataram a quinta. Haroldo Paraguassú gravou os teclados e alguns sons eletrônicos ao longo dessas últimas duas semanas. As vozes já estão todas gravadas, só esperando que a mixagem defina uma que outra refação ou backing vocal. Os convidados vão ser chamados durante as mixagens pra gravar as participações. Mas com isso tudo em mente, mais o tempo pra masterizar e mais o tempo que demora pro disco voltar da fábrica, pronto: já sabemos que esse disco não nasce em outubro, que era a nossa última previsão. É uma pena tremenda, porque a gente sabe que, além de nós mesmos, tem um pessoal que anda ansioso pelo disco. A gente fica angustiado querendo botar o bloco pra suar na rua de uma vez, mas ainda é preciso esperar pra que tudo se apronte direitinho.
E essa angústia de ver as coisas prontas logo acaba nos tirando o sono. Mas chega uma hora que se percebe que não adianta esquentar a cabeça se o mundo não tá conspirando a favor dos prazos. O que a gente tem a fazer é tocar o disco adiante com rapidez e agilidade, mas sem aquela pressa que faz com que o trabalho atropele a si mesmo. Se estressar vai acabar mais nos atrapalhando do que nos ajudando. E então fica decidido: o disco vai ficar pronto no momento certo. E a gente não faz mais previsões (pelo menos por enquanto). Claro que vamos seguir trabalhando firme, a todo vapor! E tomara que assim as coisas do corpo, das máquinas, do tempo e da música se encontrem e se curtam, pra que esse disco nasça do jeito que a gente quer: bonitaço!
_DIÁRIO #4
Porto Alegre, 03 de agosto de 2009
Por Alexandre Kumpinski
Mês de agosto, frio no rosto. Gasolina só se for no posto. Vai fazer um ano que roubaram meu fuca. Levaram ele todo sujo, cheio de mutuca. Fiquei desamparado, quis acreditar que tivesse sido guinchado. Mas que nada, nada não. Foi levado mesmo por algum ladrão. Estacionei ali perto da Santa Casa e pareceu que criou asa! Quando voltei, não tava mais. Procurei por tudo, até no cais. Sumiu o Fuquinski, como era chamado. Por sinal, apelido muito bem dado por Lucas Cassales (que dirige um Versailles), colega de faculdade e sujeito de grande amizade. E por falar em apelido e amizade – e acabando com essa palhaçada de ficar rimando sem sentido – no diário passado citei os camaradas Slap e Boto. Como o assunto deu ibope (recebemos comentários até de Moacyr Scliar aqui, rapazeada!) resolvi dar mais pano pra essa manga, botar mais manga nesse suco, espremer ainda mais o assunto. Assunto, presunto, conjunto, besunto.
Slap Mesmo (Mauro Pogorelsky) e Boto Stanley (Otávio Lokschin) tem mais em comum do que apelidos e sobrenomes engraçados. Os dois também são técnicos de gravação do Estúdio12 e assistentes de produção do Marcelo Fruet. Logo, eles fazem um trabalho essencial no processo longo e cuidadoso que é a gravação de um disco. São eles que comandam a técnica, organizam a sala de gravação, botam pra funfar os devidos equipamentos e ajudam a resolver qualquer problema ou dúvida que surja. O disco da Apanhador começou a ser gravado com Slap na técnica, praticando uma sinceridade que sempre veio a calhar. Aliás, Slap é parceiro antigo da banda: foi ele quem produziu a gravação de “Maria Augusta” em 2005, música que abre o nosso primeiro ep Embrulho Pra Levar. É muito por conta dessa música que agora a gente grava esse primeiro álbum, já que ela foi o que podemos chamar de “carro-chefe”* desse ep e, por um bom tempo, do nosso repertório como um todo. Slap também dá aulas de inglês, concerta motos, toca baixo, trompete e se identifica com o lula-molusco, apesar de estar cada vez menos rabugento. Rabugento, sargento, desalento, barulhento.
Já Boto Stanley é calado, bem-humorado e paciente. Ótimas virtudes pra quem precisa aguentar o Fruet dentro de um estúdio (tinha decidido dar uma folga pro Fruet aqui no diário, mas essa tava na medida!). Foi ele quem apertou o REC durante as gravações de parte das guitarras e da maioria das vozes do disco. E gravar voz comigo não é uma tarefa das mais fáceis, porque não nasci Elis Regina e preciso fazer vários takes até engrenar na passarinhagem. Entre decidir interpretação, ajustar afinação e limar alguns cacoetes lá se vão uns sete takes até a coisa começar a ficar boa pra ir pro disco. Disco, risco, pisco, cisco.
Acho que só pra “Jesus, o Padeiro e o Coveiro” eu precisei fazer poucos takes. Ligamos um microfone dinâmico num amplificador de guitarra e passamos mais tempo equalizando e ajustando o timbre do que propriamente cantando. Desde o primeiro take o vocal já parecia aquecido e, numa tarde inspirada, devo ter feito uma meia dúzia de takes, todos bons. Bons, sons, tons, dons.
Nessas horas lembro de Estêvão Bertoni, vocalista da Bazar Pamplona e grande amigo, que me contou que fez no máximo 3 takes de cada uma das 18 músicas que eles gravaram pro primeiro disco da banda. Ouço o disco e quase não acredito nele. Admito que invejo quem é mais certeiro nas execuções. Acho bonito o mito da precisão. Precisão, atenção, comichão, papelão.
No momento, junto com as mixagens, vamos cuidando da prestação de contas do disco junto ao Fumproarte e pensando no projeto gráfico dele. Adiante mais detalhes quentes sobre toda essa fuzarca e quem sabe uma fofoquinha à toa pra dar uma descontraída. Não sobre a prestação de contas claro, que é um assunto chato bagarai. Bagarai, chocalho, baralho, trabalho.
*N.A.: aqui, ao contrário do que possa parecer, não é mera coincidência o uso da expressão “carro-chefe”. Ela remete diretamente ao assunto tratado no primeiro parágrafo do texto, dando credibilidade semântica e estrutural ao autor, além de inveja ao Scliar.
Alexandre Kumpinski é vocalista, guitarrista e principal compositor da banda Apanhador Só, de Porto Alegre. Leia mais:
(diários #1, #2 e #3)
(diário #6)
(diário #7)
(diário #8 – final)
Diário das gravações: Apanhador Só
_DIÁRIO #5
Porto Alegre, 20 de agosto de 2009
Por Alexandre Kumpinski
Antigamente este diário contava com um cabeçalho superbem transado pelas meninas da Alavanca que apresentava o que viriam a ser estes meus relatos. Ele acabava pontuando: “O músico promete atualizações quinzenais”. Pois o músico prometeu e não cumpriu, rapazeada! Já se passaram 17 dias desde a última publicação. Mas eis que pinta aqui o nosso diário #5, atrasado e com o nariz vermelho. De frio, que aqui ninguém é palhaço! E não à toa, vamos falar sobre prazos, atrasos, promessas não cumpridas e úlceras em desca(n)so.
Desde que começamos a gravar esse nosso primeiro disco, já devemos ter previsto o lançamento dele pra umas 5 datas diferentes. De março pra maio pra julho pra setembro, até que a gente foi percebendo que sabíamos pouco sobre o que é lançar um álbum. Por mais que a gente tenha feito previsões lógicas baseadas no que ainda precisava ser feito pra que tudo se aprontasse direitinho, nunca chegamos a prever os imprevistos. E, no nosso caso, os imprevistos têm vindo aos borbotões. O alvo da maioria deles, como não poderia ser diferente, é o nosso inacabável Fruet! Foi tendinite no ombro, pulso estourado, 14 amidalites, cirurgia no lado de baixo do equador, insônia transitória e calvície repentina. Sem falar no computador que ficou com saudade dele durante alguma das recuperações e resolveu se emperiquitar também. Aí foi comprar computador novo, instalar tudo que é programa e configurar tudo nos trinques pra funfar a mil nas mixagens. “Que zica” – filosofa o Fruet, com o braço esquerdo na tipóia e munhequeira no pulso direito. “Foda” – eu respondo já livre da tornozeleira de velcro enquanto penso mais uma vez em como seria bom se a gente pudesse dedicar todo o nosso tempo só pra esse disco, esquecendo faculdade, dinheiro e essa inconfundível condição humana.
A todas essas, os cronogramas vão deslizando por entre as páginas das nossas agendinhas de bolso. Sem dramas, as mixagens já começaram, mas ainda não engataram a quinta. Haroldo Paraguassú gravou os teclados e alguns sons eletrônicos ao longo dessas últimas duas semanas. As vozes já estão todas gravadas, só esperando que a mixagem defina uma que outra refação ou backing vocal. Os convidados vão ser chamados durante as mixagens pra gravar as participações. Mas com isso tudo em mente, mais o tempo pra masterizar e mais o tempo que demora pro disco voltar da fábrica, pronto: já sabemos que esse disco não nasce em outubro, que era a nossa última previsão. É uma pena tremenda, porque a gente sabe que, além de nós mesmos, tem um pessoal que anda ansioso pelo disco. A gente fica angustiado querendo botar o bloco pra suar na rua de uma vez, mas ainda é preciso esperar pra que tudo se apronte direitinho.
E essa angústia de ver as coisas prontas logo acaba nos tirando o sono. Mas chega uma hora que se percebe que não adianta esquentar a cabeça se o mundo não tá conspirando a favor dos prazos. O que a gente tem a fazer é tocar o disco adiante com rapidez e agilidade, mas sem aquela pressa que faz com que o trabalho atropele a si mesmo. Se estressar vai acabar mais nos atrapalhando do que nos ajudando. E então fica decidido: o disco vai ficar pronto no momento certo. E a gente não faz mais previsões (pelo menos por enquanto). Claro que vamos seguir trabalhando firme, a todo vapor! E tomara que assim as coisas do corpo, das máquinas, do tempo e da música se encontrem e se curtam, pra que esse disco nasça do jeito que a gente quer: bonitaço!
_DIÁRIO #4
Porto Alegre, 03 de agosto de 2009
Por Alexandre Kumpinski
Mês de agosto, frio no rosto. Gasolina só se for no posto. Vai fazer um ano que roubaram meu fuca. Levaram ele todo sujo, cheio de mutuca. Fiquei desamparado, quis acreditar que tivesse sido guinchado. Mas que nada, nada não. Foi levado mesmo por algum ladrão. Estacionei ali perto da Santa Casa e pareceu que criou asa! Quando voltei, não tava mais. Procurei por tudo, até no cais. Sumiu o Fuquinski, como era chamado. Por sinal, apelido muito bem dado por Lucas Cassales (que dirige um Versailles), colega de faculdade e sujeito de grande amizade. E por falar em apelido e amizade – e acabando com essa palhaçada de ficar rimando sem sentido – no diário passado citei os camaradas Slap e Boto. Como o assunto deu ibope (recebemos comentários até de Moacyr Scliar aqui, rapazeada!) resolvi dar mais pano pra essa manga, botar mais manga nesse suco, espremer ainda mais o assunto. Assunto, presunto, conjunto, besunto.
Slap Mesmo (Mauro Pogorelsky) e Boto Stanley (Otávio Lokschin) tem mais em comum do que apelidos e sobrenomes engraçados. Os dois também são técnicos de gravação do Estúdio12 e assistentes de produção do Marcelo Fruet. Logo, eles fazem um trabalho essencial no processo longo e cuidadoso que é a gravação de um disco. São eles que comandam a técnica, organizam a sala de gravação, botam pra funfar os devidos equipamentos e ajudam a resolver qualquer problema ou dúvida que surja. O disco da Apanhador começou a ser gravado com Slap na técnica, praticando uma sinceridade que sempre veio a calhar. Aliás, Slap é parceiro antigo da banda: foi ele quem produziu a gravação de “Maria Augusta” em 2005, música que abre o nosso primeiro ep Embrulho Pra Levar. É muito por conta dessa música que agora a gente grava esse primeiro álbum, já que ela foi o que podemos chamar de “carro-chefe”* desse ep e, por um bom tempo, do nosso repertório como um todo. Slap também dá aulas de inglês, concerta motos, toca baixo, trompete e se identifica com o lula-molusco, apesar de estar cada vez menos rabugento. Rabugento, sargento, desalento, barulhento.
Já Boto Stanley é calado, bem-humorado e paciente. Ótimas virtudes pra quem precisa aguentar o Fruet dentro de um estúdio (tinha decidido dar uma folga pro Fruet aqui no diário, mas essa tava na medida!). Foi ele quem apertou o REC durante as gravações de parte das guitarras e da maioria das vozes do disco. E gravar voz comigo não é uma tarefa das mais fáceis, porque não nasci Elis Regina e preciso fazer vários takes até engrenar na passarinhagem. Entre decidir interpretação, ajustar afinação e limar alguns cacoetes lá se vão uns sete takes até a coisa começar a ficar boa pra ir pro disco. Disco, risco, pisco, cisco.
Acho que só pra “Jesus, o Padeiro e o Coveiro” eu precisei fazer poucos takes. Ligamos um microfone dinâmico num amplificador de guitarra e passamos mais tempo equalizando e ajustando o timbre do que propriamente cantando. Desde o primeiro take o vocal já parecia aquecido e, numa tarde inspirada, devo ter feito uma meia dúzia de takes, todos bons. Bons, sons, tons, dons.
Nessas horas lembro de Estêvão Bertoni, vocalista da Bazar Pamplona e grande amigo, que me contou que fez no máximo 3 takes de cada uma das 18 músicas que eles gravaram pro primeiro disco da banda. Ouço o disco e quase não acredito nele. Admito que invejo quem é mais certeiro nas execuções. Acho bonito o mito da precisão. Precisão, atenção, comichão, papelão.
No momento, junto com as mixagens, vamos cuidando da prestação de contas do disco junto ao Fumproarte e pensando no projeto gráfico dele. Adiante mais detalhes quentes sobre toda essa fuzarca e quem sabe uma fofoquinha à toa pra dar uma descontraída. Não sobre a prestação de contas claro, que é um assunto chato bagarai. Bagarai, chocalho, baralho, trabalho.
*N.A.: aqui, ao contrário do que possa parecer, não é mera coincidência o uso da expressão “carro-chefe”. Ela remete diretamente ao assunto tratado no primeiro parágrafo do texto, dando credibilidade semântica e estrutural ao autor, além de inveja ao Scliar.
Alexandre Kumpinski é vocalista, guitarrista e principal compositor da banda Apanhador Só, de Porto Alegre. Leia mais:
Junho e Julho 2009
(diários #1, #2 e #3)
Setembro 2009
(diário #6)
Outubro 2009
(diário #7)
Abril 2010
(diário #8 – final)