Audio clip: Adobe Flash Player (version 9 or above) is required to play this audio clip. Download the latest version here. You also need to have JavaScript enabled in your browser.

Diário das gravações: Apanhador Só

Share

_DIÁRIO #3
Porto Alegre, 20 de julho de 2009

Por Alexandre Kumpinski

Apesar do Rock&Gol estar aí firme divertindo a galera, tem muita gente que defende que ser músico e jogar bola é uma combinação quase tão auto-destrutiva quanto beber e dirigir. Claro que pra dirigir Barfly o Barbet Schroeder tomou lá os seus drinques, mas em compensação um de seus mais famosos xarás (o pianista Schroeder, d’A Turma do Charlie Brown) nunca foi visto à toa jogando bola com os amiguinhos.

É com esse exercício barato de raciocínio lógico e não conclusivo que abrimos o diário #3 já num clima de férias de julho e procrastinação. Porque se essa introdução serve pra alguma coisa, é só pra dizer em muitos caracteres que esse jovem que vos escreve resolveu se aventurar numa pelada de domingo e saiu com os ligamentos do tornozelo esquerdo parcialmente escangalhados.

Naturalmente, não sendo a lesão no braço ou na mão, sigo cantando, rimando fraquinho e tocando violão. Só que agora chego no Estúdio12 não de ônibus, mas de carona; e gravo as vozes não de pé, mas quase deitado. De resto segue tudo igual, tirando que uísque não pode, por causa do remédio (sobra mais gelo pra tratar a lesão, quem diria), e que o Fruet me trata melhor agora que não sou mais só ruim da cabeça, mas também doente do pé.

Enquanto vamos acabando de gravar as vozes do disco, o cavalheiresco Fruet já tá começando a mixar algumas músicas com toda aquela garra e artéria pulsante que lhe é característica. Só quem já viu ele moldando frequências num equalizador gráfico pirata conhece a poesia contida no ato. É corte de grave pra lá, agudo retilíneo uniforme pra cá. Vale um vale!

E as 2 músicas cujos vocais ainda faltam ser gravados são as que tinham pendências de letra a serem resolvidas até esse último fim de semana: “Prédio” e “Nescafé”. A primeira foi escrita em parceria com o poeta Diego Grando, e foi exatamente com ele que eu me sentei numa mesa de bar nesse último sábado pra desabafar dúvidas, rabiscar novidades e fechar conclusões a respeito dela. Já “Nescafé” foi escrita a 8 mãos: as minhas, as do Ian Ramil, as do Marcelo Souto e as do mesmo Diego Grando. Nesse caso, a letra sofreu os ajustes finais através de um longo e amigável e-mail coletivo no qual a gente afiou os miolos pra matar as incertezas do coração.

Agora é se concentrar pra finalizar direitinho as vozes principais, se inspirar pra alguns backing vocals, não esquecer de levar o kazoo pra atazanar o Fruet nos momentos de descanso e preparar os ouvidinhos com muito sabão e cotonete pra decisiva fase das mixagens. Martin, Felipe e Pacote também vão se aventurar nos backings vocals e eu já passei pra eles a minha receita de melzinho com própolis batizado pra aquecer a goela.

Na próxima quinzena espero poder falar não só sobre essa nova experiência dos meninos cantantes, mas também sobre Boto Stanley, o técnico de gravação mais otimista e paciente da história do Estúdio12. Se sobrar linha, trataremos sobre o sumiço de Slap Mauro, o lula-molusco da comunidade judaica reggaeira de Porto Alegre que nunca mais apareceu nas gravações da Apanhador pra distribuir opiniões sinceras e marcantes a respeito de tudo o que há nesse mundo. Até lá, e muito obrigado a Benedict Grapeson por inventar a tornozeleira com fecho de velcro.

_DIÁRIO #2
Porto Alegre, 06 de julho de 2009

Por Alexandre Kumpinski

Nosso produtor Fruet, do alto da sua sabedoria, já tinha nos dito algumas vezes que passar uma semana ou dez dias na praia pré-produzindo um disco rende o mesmo que dois meses de trabalho aqui em Porto Alegre. Foi assim com a Chimarruts, foi assim com a Pública, não teria porque ser diferente com a Apanhador. E, de fato, não foi.

Como eu expliquei no diário #1 – quem ainda não leu, faça-me o favor! – a gente dividiu o disco em dois grandes grupos de músicas. O primeiro deles pré-produzimos em Porto Alegre, em meio a aulas, trabalhos, outras bandas e toda a sorte de diversão e badtrips que uma cidade grande pode oferecer. Como os horários dos integrantes da banda não se batiam direito, depois de uma rápida rabiscada de caneta num papel com os compromissos de todos organizados em tabela, chegamos à amedrontadora conclusão de que só conseguiríamos ensaiar de madrugada durante a semana. O Martin (baterista) ficou um pouco preocupado, achando que isso poderia atrapalhar o Clube dos Brincadeirinha, coletivo de homens que apesar de serem heterossexuais gostam de se vestir de mulher e sair na noite apavorando a cidade. Martin é co-fundador do grupo e não chega a se vestir de mulher, mas organiza a bagunça e ganha salário fixo pra isso. Compra peruca, glitter, salto 15 e distribui. Uma loucura! Mas nem chegou a atrapalhar, já que normalmente o Clube se junta nas quartas, dia em que a gente nunca ensaiava porque eu tinha que dormir num laboratório do sono pra investigar o motivo de sempre acordar no meio da noite mastigando os meus cadarços.

Pois bem, a gente não conseguia ensaiar muito aqui em Porto Alegre, mas quando chegou o verão – e junto com ele o momento de pré-produzir a segunda metade das músicas – a gente jogou a vida pro alto, juntamos os equipamentos, assopramos as havaianas, nos lambuzamos de Cenoura & Bronze e nos mandamos pra praia do Cassino! Apesar do nome, lá a gente não viu sequer um carteadinho à toa, uma biriba ou uma canastrinha de velhos. Roleta, então, nem pensar… que dirá Russa! Mas é uma bela praia e o povo de lá nos recebeu muito bem. Rolou até show de despedida no meio da avenida. Ficamos na casa da família do Fruet sendo tratados como marajás pela Dona Helena, cozinheira de mão cheia e coração grande, cuja única infelicidade nessa vida foi ter nascido vó do Fruet. Aliás, esse mesmo Fruet nos apresentou a cidade, nos levou pra passear de barco e organizou festinhas com muito chocolate, cerveja e polícia no portão. Grande!

E no fim a gente viu que o produtor tinha razão mais uma vez: a pré-produção da segunda metade do disco na praia foi léguas mais rápida que a da primeira na cidade. Estarmos todos na mesma casa, dormindo, comendo e descansando nos mesmos horários, tocando muitas horas por dia e brigando pela fila do banho nos fez passar a régua nos arranjos de 6 músicas em 6 dias, acertando metrônomos e já fazendo gravações pra ver como é que tava soando a coisa toda. Falando nisso, acertar os andamentos das músicas não é uma tarefa tão simples como parece. Várias músicas da Apanhador tem quebras de metrônomo, o que fez a gente ficar testando e gravando guias nos ensaios várias vezes até acertar os bpms direitinho. O Martin tocava com o click nos fones e a gente ia seguindo. Depois parava, escutava, torcia o nariz ou batia palma, discutia, mapeava, trocava e gravava de novo até achar que tá bom. “Nescafé” é a faixa campeã de trocas de andamento no meio da canção, somando 13 no total. Botamos fé que o Zagallo vai curtir o som.

No momento continuamos gravando vozes. Já estão devidamente documentados os vocais de “E se não der?”, “Peixeiro”, “Um Rei e o Zé”, “O Porta-Retrato” e “Pouco Importa”. Na última sexta-feira a gente começou a gravar “Origames Over”, mas como eu tava num dia meia-boca, desafinando muito e lançando perdigotos nos microfones do Fruet a toda hora, a gente acabou achando melhor deixar pra segunda (com beijo na bunda e tudo). Gravar voz tem essa dificuldade a mais: tem dias que não encaixa e não adianta chorar as pitangas. Se é guitarra e tu não tá num dia muito bom, dificilmente a gravação vai ficar ruim o suficiente pra não poder ser aproveitada de alguma maneira. Mas vozes às vezes não rola mesmo.

E com isso a gente vai encerrando esse diário #2. Se mantenham agasalhados, não briguem com seus colegas e deixem os seus cãezinhos fornicarem à vontade. Se eles não sentem vergonha, não tem porque a gente sentir por eles. E se algum dia tiverem a oportunidade, comam o escondidinho de abóbora da Dona Helena que vale muito a pena.

_DIÁRIO #1
Porto Alegre, 22 de junho de 2009

Por Alexandre Kumpinski

Olá. Meu nome é Alexandre Kumpinski, mas podem me chamar só de Alexandre. Ou só de Kumpinski, tanto faz. Ou podem inventar algum apelido bacana pra mim (Zoréba não vale).

Eu sou vocalista e guitarrista da Apanhador Só, banda que está gravando o seu primeiro álbum. De agora em diante eu vou escrever o que se pode chamar de um diário de gravações. Vou contar aqui a quantas anda o disco, além de alguns dos melhores ou mais importantes momentos do que tem sido a gravação dele.

Esse álbum está sendo financiado pelo FUMPROARTE, fundo municipal de apoio à cultura aqui de Porto Alegre. Conseguimos esse financiamento na terceira vez em que inscrevemos o nosso projeto nesse edital, e como qualquer um pode imaginar, ficamos contentíssimos por termos conseguido o dinheiro necessário pra gravar o nosso primeiro disco em ótimas condições, podendo escolher bons estúdios onde gravar, um bom produtor pra produzir etc.

A produção do disco é do Marcelo Fruet, um dos personagens principais do que vai ser esse nosso diário de gravações. Isso porque Fruet não só produz, como também ensina a viver. E é um alvo fértil pras minhas piadas, que não tem graça nenhuma, mas o irritam como quase ninguém (e por isso cumprem um papel essencial dentro do processo criativo do disco: o Fruet irritado fica mais crítico e faz a gente tocar melhor, vejam só.) Ainda bem que eu descobri isso cedo.

Pois bem: o disco vai ter 13 faixas que a gente dividiu em dois grupos pra pré-produzir e gravar. Essa divisão foi sugestão do Fruet, que nos contou que dividir o repertório faz com que a gente se concentre mais em cada música, aprofunde mais os seus arranjos e perceba melhor as suas necessidades. Sábio Fruet! O lado negativo, como ele mesmo nos avisou, é que com essa divisão o processo todo fica um pouco mais lento, porque as etapas todas têm de ser vencidas duas vezes. Mas entre pressa e precisão, a gente escolheu a opção que não nos faria comer um disco cru. Então dividimos o repertório em um primeiro grupo de 7 músicas e um segundo grupo de 6. Os grupos foram escolhidos conforme a sonoridade das músicas, já que as baterias do primeiro seriam gravadas no estúdio Soma, e as do segundo no Estúdio 12, que é o estúdio do próprio Fruet e no qual a maior parte do disco foi/vai ser gravada.

Digo “foi/vai ser” porque já gravamos quase tudo o que era preciso gravar, mas ainda há alguns instrumentos a serem vencidos. Nessa segunda quinzena de junho em que escrevo, estamos gravando os vocais. Baterias, guitarras, baixos, violões, percussões-sucata e outros sonzinhos de todas as músicas já estão devidamente imprimidos no hd do Fruet. Falando nisso, vocês precisam ver a criatividade do Fruet na hora de nomear os hd’s dele (assunto pra outro dia, alguém me lembra disso, por favor).

Já os instrumentos que não são comuns à formação da banda e que exigem boa técnica pra serem tocados decentemente (bandolim e gaita, por exemplo), ainda serão gravados por convidados especiais. Escaleta eu mesmo andei gravando e fiquei muito orgulhoso. Depois descobri que até a minha priminha de pouco mais de dois anos tem uma escaleta e consegue tocar. E ela também faz balé.

A gaita (ou acordeão) citada antes é pra música “Balão-de-Vira-Mundo”, que recebeu uma parte nova no arranjo. Deverá ser gravada pelo maestro Arthur de Faria, que saca muito de tango e metereologia. Se confirmarmos a necessidade de um bandolim na música “Peixeiro”, Cláudio Levitan, conhecido também como Capitão Tan-Tan, será escalado pra fazer as cordinhas saltitarem, mesmo que ele ainda não saiba disso. (Se por acaso tu estiver lendo, Cláudio, topas?)

Naturalmente, é melhor que os instrumentos que já estão devidamente acertados no arranjo estejam gravados antes que o que ainda precisa ser criado e lapidado pinte na área. Por isso estamos gravando as vozes antes das participações dos convidados. E é por isso que eu não tenho tomado muito gelado, não tenho gritado muito nos jogos do Colorado e não tenho dormido de boca muito aberta. Estou alerta, cuidando da voz. Uma engasgada com uma mosca a essas alturas do campeonato poderia ser trágico. Todo cuidado é pouco.

Enfim, pra não me estender demais, vou encerrando por aqui esse que é o primeiro capítulo, a primeira página, o primeiro passo desse nosso diário de gravações. Conforme as coisas forem acontecendo ou sendo lembradas, eu vou escrevendo. Algumas coisas eventualmente eu acabo inventando, mas as partes importantes são todas verdade. Só minto pra fazer piada. Não tenho prima nenhuma, por exemplo. E os nomes dos HDs do Fruet são só números. Sem graça nenhuma.

Alexandre Kumpinski é vocalista, guitarrista e principal compositor da banda Apanhador Só, de Porto Alegre. Leia mais:

Agosto 2009

(diários #4 e #5)

Setembro 2009

(diário #6)

Outubro 2009

(diário #7)

Abril 2010

(diário #8 – final)

22/6/2009. Tags: , , , , . Link Permanente

Arquivos

AGENDA

Flickr

apanhador só @ lollapalooza brasil [06.04.2014]apanhador só @ lollapalooza brasil [06.04.2014]apanhador só @ lollapalooza brasil [06.04.2014]apanhador só @ lollapalooza brasil [06.04.2014]apanhador só @ lollapalooza brasil [06.04.2014]apanhador só @ lollapalooza brasil [06.04.2014]apanhador só @ lollapalooza brasil [06.04.2014]apanhador só @ lollapalooza brasil [06.04.2014]apanhador só @ lollapalooza brasil [06.04.2014]apanhador só @ lollapalooza brasil [06.04.2014]apanhador só @ lollapalooza brasil [06.04.2014]apanhador só @ lollapalooza brasil [06.04.2014]