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Alavanca Especial

Entrevista: Stela Campos

Stela Campos é nossa artista com a carreira mais longeva. Seu primeiro disco, Céu de Brigadeiro, foi lançado em 1999. Mas a cantora já perambulava pelos palcos em apresentações com a banda Lara Hanouska, no começo dos anos 90, em São Paulo e depois em Recife, onde viveu durante seis anos e construiu parte importante de sua carreira, colhendo elogios tanto por seu álbum de estréia quanto por shows memoráveis na capital pernambucana.

Essa convivência com a turma de Chico Science (que a considerava a “Billie Holliday de garagem”) leva muitos a relacionarem o trabalho de Stela ao movimento mangue beat. Ela esclarece, na entrevista abaixo, que a ligação com essa cena foi de aprendizado. “O pessoal lá me apresentou a muita coisa boa. Eles tinham uma rede de amigos espalhados pelo mundo que enviava umas coletâneas em cassete que eram muito legais. O Hélder, DJ Dolores, em especial – foi ele quem me apresentou, por exemplo, ao Serge Gainsbourg, que mudou minha vida. Ao mesmo tempo, eu era uma ovelha negra na cena. Meu som não tinha nada de regional. Seria desonesto da minha parte se fosse, aliás”.

Prestes a lançar seu quarto álbum, Stela comenta aqui o processo de composição e gravação de Mustang Bar, trabalho mais cru e visceral que seus antecessores. “Acho que o novo trabalho é um divisor de águas; meio que um exorcismo de uma estética garageira-psicodélica que eu ainda não havia tido a chance de mostrar em disco – ou ainda não havia dado prioridade”.

Agência Alavanca – Muita gente associa seu trabalho a cena noventista do Recife, embora sua sonoridade pouco tenha a ver com a estética do mangue beat. Como foi a tua relação com esta cena, na época em que você morou na capital pernambucana?
Stela Campos - Foi mais uma relação de aprendizado – em termos de referências musicais, principalmente. Hoje em dia, a gente descobre tudo via internet, mas em 93, 94, o boca a boca era fundamental. O pessoal lá me apresentou a muita coisa boa. Eles tinham uma rede de amigos espalhados pelo mundo que enviava umas coletâneas em cassete que eram muito legais. O Hélder, DJ Dolores, em especial – foi ele quem me apresentou, por exemplo, ao Serge Gainsbourg, que mudou minha vida. Ao mesmo tempo, eu era uma ovelha negra na cena. Meu som não tinha nada de regional. Seria desonesto da minha parte se fosse, aliás. Estava lá, freqüentava a mesma cena, mas ficava mais restrita à cena guitar-indie local. Ao mesmo tempo era uma cena muita aberta, o que me permitiu colaborar com quase todo mundo de lá: Chico Science, Fred 04, Siba, DJ Dolores, Devotos, Eddie, etc.

Mustang Bar, título do seu novo trabalho, é referência a um bar que vocês frequentavam nesse período, né? Dá pra falar que, de certa forma, isto é uma homenagem àquela época?
Não era um bar que a gente freqüentava, na verdade. Toda a boemia recifense já baixou por lá em algum momento, mas não era um point da cena. Era tipo um reduto da vida ordinária, um boteco gigante, localizado bem no coração do centro de Recife. Totalmente desprovido de glamour; como a letra da música. E não, não é uma homenagem à época.

Este novo álbum parece retomar um espírito experimental lo-fi e despretensioso que era bem presente no teu primeiro disco, o Céu de Brigadeiro. Essa retomada por uma sonoridade mais crua, que a gente nota também no EP Daniel Johnston, foi motivada pelo que?
É a retomada de uma sonoridade mais crua, sem dúvida. Mas não sei o que dizer sobre a comparação com o Céu de Brigadeiro. Mustang Bar não tem muito a ver com esse disco, na verdade – embora eu entenda o que você queira dizer sobre o lance lo-fi. Acho que o novo trabalho é um divisor de águas; meio que um exorcismo de uma estética garageira-psicodélica que eu ainda não havia tido a chance de mostrar em disco – ou ainda não havia dado prioridade.

Quando você retornou a São Paulo e lançou o Fim de Semana (2002), muita gente te colocou naquele balaio de “novas cantoras que misturam MPB com eletrônica”. E mesmo que a tua postura, principalmente nos shows, fugisse desse estereótipo e apontasse pra caminhos mais roqueiros, essa rotulação também caiu sobre Hotel Continental. E agora, Mustang Bar é um disco que transparece mais sua alma de roqueira. Você concorda com isso? Acha que vão, finalmente, parar de usar a sigla MPB pra classificar seu trabalho e te colocar numa prateleira mais adequada?
Espero que sim. Eu vejo essa associação como um preconceito endêmico da cena nacional, e até entendo. O cara vê uma cantora com nome e sobrenome, constata a conexão eletrônica; não perde tempo, então, em me enquadrar no balaio que você falou. Se alguém for inspecionar minha discografia, no entanto, vai perceber que não tem nada a ver – ao menos com o que costuma ser chamado de mpb. Sempre fiz pop experimental, com ou sem guitarras. Não sinto Mustang Bar como um resgate da minha alma roqueira, até por que para mim ela nunca esteve perdida – apenas meio pulverizada. Ao mesmo tempo, sei que é assim que vai soar, pois é bastante abrasivo. Acho que vai mudar a perspectiva geral, sim.

Conta um pouco sobre como foi o processo de gravação e produção desse novo trabalho. Você demorou bastante pra entrar em estúdio, mas saiu de lá, em uma semana, com tudo pronto, né?
Eu tinha a pré-produção caseira, que estava bem redonda. Me reuni com os músicos, mostrei as demos e eles entraram no clima de primeira. E, claro, fizeram acréscimos fundamentais. A subida de tom de “Ligia Hello Kitty” foi uma sacada genial do Clayton Martin. Foi uma parceria meio telepática: 90% do disco veio dos primeiros takes – mas demorou um pouco mais que uma semana, sem os ajustes da pós-produção. O Missionário José foi igualmente fundamental. “Wasting My Time”, por exemplo, era um lance meio latino, meio Henry Mancini new wave. Por mais que essa associação pareça legal, a roupagem kraut noise – ou sei lá o quê – que ele apresentou impôs-se de cara como a versão definitiva. Quanto a mim, muita coisa do que eu trouxe de casa foi reaproveitada integralmente. “Le Capitaine” e “Scaramaga”, por exemplo. O que se ouve no disco são as pistas das demos originais com alguns acréscimos.

Novamente você traz fantásticos personagens nas tuas músicas. Você pode falar um pouco sobre as personas que circulam nesse Mustang Bar? Alguns deles aparecem em mais de uma música… há um conceito, uma narrativa, neste disco?
No começo, Mustang Bar era para ser um disco conceitual, tipo uma coleção de crônicas da “terra do muro baixo”, nas palavras do meu parceiro-letrista Luciano Buarque. Mas a pegada das músicas não comportava versos muito longos. Então a gente optou por letras mais enxutas, sempre em função da métrica e da sonoridade das canções. Por esse mesmo motivo, optamos mais do que de costume pela língua inglesa (em 3 faixas; e tem uma em francês também). O disco tem 12 faixas. Nossa prioridade é o idioma pátrio, mas às vezes o português soa duro, pouco flexível para a estrutura do rock; às vezes, insistir nele pode acabar sacrificando uma música. Só quem enfrenta esse dilema sabe do que estou falando. Enfim, essa opção por versos mais curtos acabou nos desviando da idéia original, mas ainda há resquícios de um disco conceitual em Mustang Bar. Em “Laura Lullaby” fazemos referência à Laura, que aperece na música que abre o disco “Laura Te Espera Com Uma Arma Na Mão”, como se ela tivesse passado pelo “Mustang Bar” e depois tentado esquecer o peso do ‘trem fantasma”, referência à “Estação de Trem Fantasma”, num clima de ressaca e arrependimentos pela noite passada. A mesma atmosfera que cerca “1/2 Maria”, onde na letra dizemos que “1/2 de Maria surge no corredor, arrastando o que lhe restou”. Os temas são bastante interligados, se você for reparar. Ao mesmo tempo, a gente ficou livre para desvirtuar o contexto. Tipo “Le Captaine”, que cabe no ambiente temático do disco, mas que parte de uma idéia paralela.

O que inspira as tuas composições? Que sons você escuta em casa e acabam influenciando, direta ou indiretamente, seu trabalho?
Ouço de tudo, sem perder o senso crítico, claro. E minhas preferências acabam aparecendo no meu som naturalmente – mas nem sempre minhas músicas refletem o que estou ouvindo no mesmo dia, na mesma semana; minha inspiração funciona de forma meio randômica. Para não fazer uma daquelas listas quilométricas, vou citar apenas as influências que transparecem em Mustang Bar: Can, Vampyros Lesbos (trilha sonora), George Harrison, Deep Throat (trilha), Le “Scratch” Perry, The Jam, David Bowie, Os Mutantes, Serge Gainsbourg, Ladytron, Nick Drake, Lou Reed (principalmente as guitarras da fase Magic & Loss), Neu!, Liquid Sky (trilha), Pink Floyd (fase psicodélica), John Cale e Angelo Badalamenti.

Foto: Ariel Martini

Discussão

Um comentário em “Entrevista: Stela Campos”

  1. Adorei ‘Céu de Brigadeiro’.

    Escrito por Talita A. | abril 24, 2009, 17:23

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