Além de baterista da Pata de Elefante, Gustavo Telles, 30, acumula várias outras tarefas na banda formada em Porto Alegre. Agenda, negocia cachês e produz os próprios shows, divulga as novidades na imprensa e tem discurso na ponta da língua para convencer quem quer que seja a apostar no som do trio.
O espírito empreendedor, aliado às apresentações explosivas da Pata, um dos nomes mais competentes nos palcos brasileiros, garantiu lugar de destaque na nova safra musical brasileira; Daniel Mossmann e Gabriel Guedes – os dois se revezam entre guitarra e baixo – também são responsáveis pela carreira promissora da banda, que acaba de completar sete anos.
A falta de um vocalista nunca os prendeu ao nicho instrumental. Com arranjos e melodias pop, eles circulam nos principais festivais independentes nacionais e já realizaram turnês em todas as regiões do país. Inclusive, desde o lançamento do primeiro CD, auto-intitulado Pata de Elefante, em 2004, os três têm ajudado a mostrar que a música instrumental pode sobreviver sem hermetismos ou virtuosismos – e, neste sentido, a nossa safra está lotada de representantes.
Pensando nisso, a Alavanca estreia com a Pata de Elefante uma série de entrevistas para saber a quantas anda a carreira de algumas das bandas instrumentais novas e mais interessantes do Brasil. De lambuja, inaugura no Inferno Club, o projeto Zoo Instrumental, que na próxima sexta (dia 6 de março) reune os gaúchos e também os mato-grossenses do Macaco Bong numa noite ensurdecedora (veja o serviço completo).
A seguir, Gustavo fala o que gosta e não gosta nos festivais, explica por que a banda quer morar em São Paulo, fala da cena independente em Porto Alegre, comenta as mudanças sonoras no segundo disco da Pata (Um Olho No Fósforo, Outro Na Fagulha) e até anuncia o lançamento do primeiro CD solo.
Agência Alavanca – Podemos esperar alguma novidade nos shows que vocês fazem em São Paulo esta semana?
Gustavo Telles - Ah, sim, mas é surpresa. Quem quiser ver vai ter que ir aos shows!
Por que escolheram o Macaco Bong como convidado da Pata no projeto Rumos, do Itaú Cultural, e como vai ser esse show?
Pra ver o circo pegar fogo! (risos) Será a primeira vez que os dois trios instrumentais se apresentarão juntos, ou seja, os seis músicos mandando ver ao mesmo tempo. Será uma grande celebração.
A Pata é uma das bandas que mais circulou em festivais independentes brasileiros nos últimos anos. Comente o quanto isso foi importante para a carreira da banda, perrengues e boas surpresas que apareceram pelo caminho, os festivais mais marcantes e o que, em sua opinião, precisa ser melhorado nesses eventos.
Ter circulado bastante foi fundamental, pois assim formamos público em muitos lugares e passamos a existir no mapa da música brasileira atual.
As boas surpresas foram muitas, pois conhecemos muita gente legal e excelentes bandas pelo circuito dos festivais, além de sempre nos divertirmos pra valer. Tenho ótimas recordações do show que fizemos no Goiânia Noise em 2004. Estávamos lançando nosso primeiro disco, o local do show estava abarrotado de gente, isso quando o Goiânia Noise ainda acontecia no Martim Cererê. Eu estava muito mal da garganta, mas o show foi tão extasiante que, quando acabou, eu estava curado! Esse foi um grande show. E nessa edição do Festival, em que tocaram Bidê ou Balde, Faicheclaires e Cachorro Grande, entre outras, fomos a banda que mais vendeu CDs!
Quanto ao que tem que ser melhorado, tenho uma crítica voraz a fazer: o som dos festivais deixa muito a desejar. Isso é muito triste, pois vejo a estrutura toda dos festivais sendo cada vez mais elaborada e tal, mas não vejo grandes melhorias quanto ao som. O som tem que ser o principal, sempre!
Vocês fazem parte de uma safra de bandas instrumentais brasileiras que, nos últimos anos, tem aniquilado qualquer estereótipo negativo que se possa ter desse tipo de música. A exemplo de grupos como Macaco Bong, Guizado, Burro Morto, Mamma Cadela, ruído/mm, The Dead Rocks e Hurtmold, só para citar alguns, a Pata não está presa a um nicho, ocupa o mesmo espaço que os grupos com vocais. Vocês sentem-se responsáveis por essa aceitação da música instrumental? Acompanham o trabalho de outras bandas?
Acho que acabamos auxiliando sim para que a música instrumental não seja vista como algo necessariamente chato, e isso é motivo de orgulho! Acompanhamos o trabalho de outras bandas instrumentais, procuramos nos manter antenados.
A banda decidiu morar em São Paulo. Quando desembarcam de mala e cuia por aqui, por que tomaram essa decisão e quais benefícios esperam que a mudança traga a carreira da Pata?
Na real, já estamos com um pé em São Paulo desde julho do ano passado, sempre indo e voltando, de acordo com a demanda de shows e outros compromissos relativos à banda. Daqui a pouco a gente cansa da ponte aérea e fica em São Paulo direto! (risos) Mas o fato é que desde que tomamos a decisão de estar direto em São Paulo, tudo melhorou substancialmente. Além de nos apresentarmos com mais frequência em São Paulo e no interior do estado, passamos a ter uma visibilidade maior e também a tocar mais em outros estados do Brasil, uma vez que estar em São Paulo facilita a questão de logística, ou seja, é mais fácil ir tocar no Nordeste saindo de São Paulo que saindo de Porto Alegre.
Comente um pouco sobre a relação da banda com a cidade natal, Porto Alegre. Tem boas casas de show, público interessado e cena ativa por aí?
Nós amamos Porto Alegre, gostamos muito do clima da cidade. Quanto à cena musical, no que diz respeito ao rock, o que existe é muita gente talentosa, diversas bandas legais, poucos lugares pra se tocar e uma carência de profissionalismo quanto à produção, à articulação. No entanto, vejo que muita coisa está avançando.
Além de baterista, você assumiu o papel de empresário, produtor e relações públicas da Pata. Estar à frente dessas funções é um amor ou uma necessidade? Cuidar de toda burocracia de uma banda da qual você faz parte ajuda ou atrapalha a carreira de vocês? Isso interfere de alguma forma no processo criativo do trio?
É uma necessidade que tem ser exercida com muito amor e seriedade, senão não rola. Esse comprometimento ajuda a viabilizar nossa carreira. E, com o tempo, fui aprendendo a separar essa função da parte de criação e também musical, são coisas distintas. Mas dá trabalho, puta que pariu! (risos) O dia que puder, fico só gerenciando!
Ao lado da Pata, como músico empreendedor, você acompanhou toda evolução da cena musical independente desde que a década começou. Está otimista com o futuro?
Sim, muito! O necessário é que haja trabalho, articulação e talento. Rolando isso, o cenário continuará avançando.
Vocês vivem apenas como integrantes da Pata ou têm outros trabalhos musicais ou extra-musicais?
Vivemos exclusivamente da música, mas nos viramos fora da Pata também, tocando com outras pessoas, gravando em discos de outros artistas, produzindo e por aí vai. Temos que pagar nossas contas, sabe como é!
O segundo CD da Pata, Um Olho No Fósforo, Outro Na Fagulha (Monstro Discos), tem texturas sonoras mais ousadas e sofisticadas, mais instrumentos e participações especiais, e melodias (ainda que pulsantes) mais calmas, em comparação ao disco de estreia, Pata de Elefante (Monstro Discos). Essa mudança aconteceu naturalmente ou foi uma decisão consciente de vocês?
Foi natural. Gosto da maneira como esses dois álbuns soam, pois retratam bem o momento em que foram concebidos e realizados. Nosso compromisso é com a boa música, e acho que isso já está bem claro. No entanto, Um Olho No Fósforo… é uma bela obra, acertamos a mão!
A banda já está trabalhando em músicas novas? Elas seguem a pegada do segundo disco ou apontam novos caminhos?
Já estamos trabalhando em novas canções e estamos descobrindo para onde elas nos levarão.
Aliás, já pensam em lançar o terceiro álbum? O que podem adiantar?
Sim, estamos pensando num terceiro disco e também num disco somente de baladas.
Você vai lançar um disco solo, certo? Quando sai, como chama e por que você decidiu fazer esse trabalho?
Sim, estou finalinzado meu disco solo, no qual canto composições minhas. Chama-se Gustavo Telles & Os Escolhidos, é um disco de folk-rock e country-rock, e conto com a participação dos Locomotores, de Gabriel Guedes e Daniel Mossmann (Pata de Elefante), Luciano Albo, Maurício Nader, Diego Lopes e Diego Garcia. Estou muito emocionado com o resultado. Esta semana encerrarei a mixagem, e aí começo a pensar em como lançar. Sou cantor e compositor, já compus para outras bandas e artistas, como Ultramen, acústicos & Valvulados e Alemão Ronaldo. Então, eu já nutria o desejo de lançar um disco solo há um bom tempo, e agora chegou o momento.
Fotos: Danilo Christidis
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