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Entrevista: Pedro Bonifrate, do Supercordas
Pedro Bonifrate é o dono da voz doce que embala as melodias bonitas dos Supercordas. Principal compositor da banda, mantém também um elogiado projeto solo, com o qual tem feito algumas apresentações acompanhado do mago Giraknob.
Habitualmente tímido e de poucas palavras, nos surpreendeu com uma longa entrevista, na qual explicou o porquê de não gostar de ter seu trabalho rotulado como folk.
Comentou como tem sido o processo de gravação do novo disco dos Supercordas, A Mágica Deriva dos Elefantes, e adiantou planos de discos solo de todos eles.
Não bastasse tudo isso, ainda deu uma verdadeira aula sobre a nova canção brasileira (vale conferir os links indicados pelo músico nesta conversa).
Agência Alavanca – Você não gosta muito do termo folk para se referir a sua obra (tanto com Supercordas, quanto no seu projeto solo). Por quê? Pedro Bonifrate – Bom, talvez seja melhor do que “rock rural”. Acho que o Seres Verdes ao Redor tinha muitos violões de aço e as levadas também induziam a alguma relação com isso de “folk”, mas acho que não vai fazer muito sentido chamar assim o que estamos fazendo agora, nem de folk, nem freak folk ou nada folk ou rock rural e essas bobagens que inventam de grudar na testa dos músicos com uma etiquetadora.
Qual seria a classificação mais adequada para uas canções? E o que você considera folk hoje em dia?
Como temos que conviver com rótulos (e é muito chato e pretensioso ficar dizendo “eu não me enquadro em rótulos”) , eu acho bom mudar de garrafa de vez em quando. Não sei qual a nossa atual classificação, estamos em algum tipo de estágio intermediário. Talvez tenhamos saído de uma Velho Barreiro e estaremos nos derramando numa Seleta logo mais. Quem sabe? Geralmente, as pessoas chamam de folk qualquer coisa que tenha um violão de aço e menos de quatro acordes. As minhas músicas costumam ter mais acordes, mas não necessariamente.
O que você está achando dessa onda folk que dizem estar rolando? Acha que é mais uma moda passageira ou temos, de fato, uma cena calcada em “folk” florescendo no Brasil?
Pois bem, a música folclórica no Brasil vive um reflorescimento fortíssimo desde pelo menos os anos 60, quando começaram a misturar os aspectos radicais da coisa com outros ritmos e outros timbres. Desde então, acho que vem sempre rolando esse sincretismo. É difícil até pensar em alguma música brasileira que não esteja impregnada dele hoje em dia. E eu acho isso saudável. Pra mim não faz sentido fazer alguma música que não seja brasileira de uma forma ou de outra.
Sobre essa tal onda folk, eu até gosto de algumas coisas que dizem fazer parte disso. Gostei por exemplo dos discos do Devendra, fora o último, mas muito dessa música está me parecendo muito careta timbristicamente (excluo disso a galera que experimenta de forma séria, tipo o Animal Collective ou o Stars Like Fleas, e a galera que consegue ser clássica sendo genial como a Joanna Newsom ou o Iron & Wine). Estamos no século XXI, e muito longe de qualquer tipo de revolução ou mobilização popular através da música, então pra que copiar o que o Pete Seeger ou o Woodie Guthrie ou o jovem Dylan estavam fazendo musicalmente há cinquenta anos atrás se a música que faziam não faz sentido algum sendo esvaziada do elemento político? Acho que os tempos seriam mais propícios pra uma nova onda prog. Daqui a pouco vai rolar, você vai ver.
Você acompanha o trabalho das outras bandas que vão tocar no festival? Vê ligações estéticas entre elas? Sim. Gosto muito do Mr. Spaceman. Ele é um baita de um concatenador de tradições melódicas e consegue fazer algo novo com isso. O disco do MoMo, Buscador, foi um dos que eu mais ouvi ano passado. Achei lindo. Disse pra ele que era a “retomada da linha evolutiva da psicodelia carioca do Erasmo Carlos em Sonhos e Memórias de 72, mas ele disse que só tinha ouvido esse disco outro dia (risos). Sobre o Vanguart, não precisa nem falar. É a nossa banda de estádio né? (mais risos)
Quem são, na sua opinião, os artistas que melhor retomam a linha evolutiva da canção popular brasileira hoje?
Por mera coincidência, são quase todos nossos amigos. Falarei dos compositores, principalmente: Simplício, Augusto, Felipe e Sandro, da Filme. Este último o Digital Ameríndio, também nosso baterista. Augusto está gravando um disco dos seus Acessórios Essenciais que, pelo pouco que eu ouvi, vai transbordar. Stan, dos Telepatas e do Departamento Celeste, de quem eu assisti o ensaio em janeiro, e tem uma música chamada “Baita precipício” que é uma loucura. A música brasileira não será mais a mesma depois dela. Tem um gajo de Minas chamado William Serra que eu conheci pelo MySpace. Trata-se de um gênio. Faz rir e chorar. Esse novo da Lulina está parecendo que vai ser uma pérola também. O Cérebro Eletrônico tem canções que são verdadeiros épicos tropicalistas. Fomos outro dia no show duplo fantástico deles e do Jumbo Elektro aqui no Rio. O disco dos baianos Teclas Pretas foi minha maior descoberta do ano passado. Fiquei boquiaberto. Pena ter sido um projeto efêmero. Vou terminar sem lembrar de tudo o que deveria, como é de costume, mas o que me impressionou ultimamente foi a obra dos Vibrosensores, e eu não sei por que diabos só ouvi com a devida atenção há pouco tempo.
Além do show do Supercordas, sexta-feira no Festival, você também vai apresentar seu repertório solo no domingo. Queria que você comentasse as principais diferenças entre as canções que grava com Supercordas e as que assina como projeto solo. E, aproveitando, conta pra gente: o que o motiva a manter um projeto solo?
Bem, não há regra alguma pra diferenciar uma coisa da outra. Mas a experiência mostra que eu tendo a botar as coisas mais épicas (ou pretensiosas, se preferir) nos Supercordas, e os lances que soariam melhores com uma gravação lo-fi eu faço sozinho. Mas na real é tudo fluido. Já gravamos coisas antigas minhas com os Supercordas (tipo “Frog Rock” ou “A Charneca”), e às vezes eu toco umas dos cordas nos concertos do “conjunto solo” (pra citar Stan Molina).
Nem sei dizer o que exatamente me motiva a manter um projeto solo, é quase intrínseco. Seria mais fácil responder o que me motiva a manter os Supercordas, que exigem muito mais, tanto que eu acho que desde que criamos os Supercordas rolou um certo retrocesso quantitativo de produção, compensado por um grande progresso qualitativo. Eu e Valentino, e acho que o Giraknob também, produzíamos muito mais antes dos cordas, e acho que vamos tentar contornar isso agora com o Musgo Estúdio. Todos queremos gravar discos solo ainda esse ano.
Vocês estão gravando disco novo. Fale um pouco sobre como está sendo esse processo, agora com um estúdio próprio.
Está sendo ótimo! Demoramos muito com o processo de concepção e pré-produção desse disco, então temos uma certa urgência de botar isso logo pra fora. Apesar disso não estamos gravando tão rapidamente como gostaríamos, por causa dos concertos e projetos diversos, musicais e outros. Mas tá dando pra gravar com calma e tá ficando mui lindo.
A Mágica Deriva dos Elefantes vai ser um álbum mais coletivo que os anteriores, né? O que dá para adiantar das canções dos demais Supercordas? Muda muito em relação ao que o público está acostumado a ver nas suas letras e melodias?
Vai ser sim. Ainda não sabemos o quanto, mas é certo que teremos uma canção do Giraknob, muito louca e muito romântica ao mesmo tempo; uma do Valentino que foi bem importante pro início da concepção desse disco, porque tinha tudo a ver com o tipo de tema que eu queria tangenciar no todo; e talvez tenhamos alguma do Kauê também, mas ainda não é certo. Além disso, temos alguns segmentos que devem se transformar em instrumentais pequeninas. Mesmo sendo minha a maioria das músicas, me parece que os outros cordas estão se imprimindo nelas de forma mais marcante. A bateria do Digital Ameríndio é muito intensa, os arranjos muito precisos e trabalhados, tendem a mudar as canções. O mesmo posso dizer das guitarras do Kauê, que ainda não tocava conosco no Seres Verdes. Isso e outras coisas mais vão deixar esse disco um tanto mais colorido que o anterior.
Festival Folk no SESC Pompeia
Sexta-feira, 13 de fevereiro, às 21h: Supercordas e MoMo
Sábado, 14 de fevereiro, às 21h: Mr. Spaceman e Vanguart Endereço: Rua Clélia, 93 – Pompeia – São Paulo, SP Ingressos (para cada dia): R$ 16,00 (inteira), R$ 8,00 (usuário matriculado no SESC e dependentes, +60 anos, estudantes e professores da rede pública de ensino) e R$ 4,00 (trabalhador no comércio e serviços matriculado no SESC e dependentes) Telefone: (11) 3871-7700 Site: www.sescsp.org.br
Entrevista: Pedro Bonifrate, do Supercordas
Habitualmente tímido e de poucas palavras, nos surpreendeu com uma longa entrevista, na qual explicou o porquê de não gostar de ter seu trabalho rotulado como folk.
Comentou como tem sido o processo de gravação do novo disco dos Supercordas, A Mágica Deriva dos Elefantes, e adiantou planos de discos solo de todos eles.
Não bastasse tudo isso, ainda deu uma verdadeira aula sobre a nova canção brasileira (vale conferir os links indicados pelo músico nesta conversa).
Agência Alavanca – Você não gosta muito do termo folk para se referir a sua obra (tanto com Supercordas, quanto no seu projeto solo). Por quê?
Pedro Bonifrate – Bom, talvez seja melhor do que “rock rural”. Acho que o Seres Verdes ao Redor tinha muitos violões de aço e as levadas também induziam a alguma relação com isso de “folk”, mas acho que não vai fazer muito sentido chamar assim o que estamos fazendo agora, nem de folk, nem freak folk ou nada folk ou rock rural e essas bobagens que inventam de grudar na testa dos músicos com uma etiquetadora.
Qual seria a classificação mais adequada para uas canções? E o que você considera folk hoje em dia?
Como temos que conviver com rótulos (e é muito chato e pretensioso ficar dizendo “eu não me enquadro em rótulos”) , eu acho bom mudar de garrafa de vez em quando. Não sei qual a nossa atual classificação, estamos em algum tipo de estágio intermediário. Talvez tenhamos saído de uma Velho Barreiro e estaremos nos derramando numa Seleta logo mais. Quem sabe? Geralmente, as pessoas chamam de folk qualquer coisa que tenha um violão de aço e menos de quatro acordes. As minhas músicas costumam ter mais acordes, mas não necessariamente.
O que você está achando dessa onda folk que dizem estar rolando? Acha que é mais uma moda passageira ou temos, de fato, uma cena calcada em “folk” florescendo no Brasil?
Pois bem, a música folclórica no Brasil vive um reflorescimento fortíssimo desde pelo menos os anos 60, quando começaram a misturar os aspectos radicais da coisa com outros ritmos e outros timbres. Desde então, acho que vem sempre rolando esse sincretismo. É difícil até pensar em alguma música brasileira que não esteja impregnada dele hoje em dia. E eu acho isso saudável. Pra mim não faz sentido fazer alguma música que não seja brasileira de uma forma ou de outra.
Sobre essa tal onda folk, eu até gosto de algumas coisas que dizem fazer parte disso. Gostei por exemplo dos discos do Devendra, fora o último, mas muito dessa música está me parecendo muito careta timbristicamente (excluo disso a galera que experimenta de forma séria, tipo o Animal Collective ou o Stars Like Fleas, e a galera que consegue ser clássica sendo genial como a Joanna Newsom ou o Iron & Wine). Estamos no século XXI, e muito longe de qualquer tipo de revolução ou mobilização popular através da música, então pra que copiar o que o Pete Seeger ou o Woodie Guthrie ou o jovem Dylan estavam fazendo musicalmente há cinquenta anos atrás se a música que faziam não faz sentido algum sendo esvaziada do elemento político? Acho que os tempos seriam mais propícios pra uma nova onda prog. Daqui a pouco vai rolar, você vai ver.
Você acompanha o trabalho das outras bandas que vão tocar no festival? Vê ligações estéticas entre elas?
Sim. Gosto muito do Mr. Spaceman. Ele é um baita de um concatenador de tradições melódicas e consegue fazer algo novo com isso. O disco do MoMo, Buscador, foi um dos que eu mais ouvi ano passado. Achei lindo. Disse pra ele que era a “retomada da linha evolutiva da psicodelia carioca do Erasmo Carlos em Sonhos e Memórias de 72, mas ele disse que só tinha ouvido esse disco outro dia (risos). Sobre o Vanguart, não precisa nem falar. É a nossa banda de estádio né? (mais risos)
Quem são, na sua opinião, os artistas que melhor retomam a linha evolutiva da canção popular brasileira hoje?
Por mera coincidência, são quase todos nossos amigos. Falarei dos compositores, principalmente: Simplício, Augusto, Felipe e Sandro, da Filme. Este último o Digital Ameríndio, também nosso baterista. Augusto está gravando um disco dos seus Acessórios Essenciais que, pelo pouco que eu ouvi, vai transbordar. Stan, dos Telepatas e do Departamento Celeste, de quem eu assisti o ensaio em janeiro, e tem uma música chamada “Baita precipício” que é uma loucura. A música brasileira não será mais a mesma depois dela. Tem um gajo de Minas chamado William Serra que eu conheci pelo MySpace. Trata-se de um gênio. Faz rir e chorar. Esse novo da Lulina está parecendo que vai ser uma pérola também. O Cérebro Eletrônico tem canções que são verdadeiros épicos tropicalistas. Fomos outro dia no show duplo fantástico deles e do Jumbo Elektro aqui no Rio. O disco dos baianos Teclas Pretas foi minha maior descoberta do ano passado. Fiquei boquiaberto. Pena ter sido um projeto efêmero. Vou terminar sem lembrar de tudo o que deveria, como é de costume, mas o que me impressionou ultimamente foi a obra dos Vibrosensores, e eu não sei por que diabos só ouvi com a devida atenção há pouco tempo.
Além do show do Supercordas, sexta-feira no Festival, você também vai apresentar seu repertório solo no domingo. Queria que você comentasse as principais diferenças entre as canções que grava com Supercordas e as que assina como projeto solo. E, aproveitando, conta pra gente: o que o motiva a manter um projeto solo?
Bem, não há regra alguma pra diferenciar uma coisa da outra. Mas a experiência mostra que eu tendo a botar as coisas mais épicas (ou pretensiosas, se preferir) nos Supercordas, e os lances que soariam melhores com uma gravação lo-fi eu faço sozinho. Mas na real é tudo fluido. Já gravamos coisas antigas minhas com os Supercordas (tipo “Frog Rock” ou “A Charneca”), e às vezes eu toco umas dos cordas nos concertos do “conjunto solo” (pra citar Stan Molina).
Nem sei dizer o que exatamente me motiva a manter um projeto solo, é quase intrínseco. Seria mais fácil responder o que me motiva a manter os Supercordas, que exigem muito mais, tanto que eu acho que desde que criamos os Supercordas rolou um certo retrocesso quantitativo de produção, compensado por um grande progresso qualitativo. Eu e Valentino, e acho que o Giraknob também, produzíamos muito mais antes dos cordas, e acho que vamos tentar contornar isso agora com o Musgo Estúdio. Todos queremos gravar discos solo ainda esse ano.
Vocês estão gravando disco novo. Fale um pouco sobre como está sendo esse processo, agora com um estúdio próprio.
Está sendo ótimo! Demoramos muito com o processo de concepção e pré-produção desse disco, então temos uma certa urgência de botar isso logo pra fora. Apesar disso não estamos gravando tão rapidamente como gostaríamos, por causa dos concertos e projetos diversos, musicais e outros. Mas tá dando pra gravar com calma e tá ficando mui lindo.
A Mágica Deriva dos Elefantes vai ser um álbum mais coletivo que os anteriores, né? O que dá para adiantar das canções dos demais Supercordas? Muda muito em relação ao que o público está acostumado a ver nas suas letras e melodias?
Vai ser sim. Ainda não sabemos o quanto, mas é certo que teremos uma canção do Giraknob, muito louca e muito romântica ao mesmo tempo; uma do Valentino que foi bem importante pro início da concepção desse disco, porque tinha tudo a ver com o tipo de tema que eu queria tangenciar no todo; e talvez tenhamos alguma do Kauê também, mas ainda não é certo. Além disso, temos alguns segmentos que devem se transformar em instrumentais pequeninas. Mesmo sendo minha a maioria das músicas, me parece que os outros cordas estão se imprimindo nelas de forma mais marcante. A bateria do Digital Ameríndio é muito intensa, os arranjos muito precisos e trabalhados, tendem a mudar as canções. O mesmo posso dizer das guitarras do Kauê, que ainda não tocava conosco no Seres Verdes. Isso e outras coisas mais vão deixar esse disco um tanto mais colorido que o anterior.
Festival Folk no SESC Pompeia
Sexta-feira, 13 de fevereiro, às 21h: Supercordas e MoMo
Sábado, 14 de fevereiro, às 21h: Mr. Spaceman e Vanguart
Endereço: Rua Clélia, 93 – Pompeia – São Paulo, SP
Ingressos (para cada dia): R$ 16,00 (inteira), R$ 8,00 (usuário matriculado no SESC e dependentes, +60 anos, estudantes e professores da rede pública de ensino) e R$ 4,00 (trabalhador no comércio e serviços matriculado no SESC e dependentes)
Telefone: (11) 3871-7700
Site: www.sescsp.org.br
Foto: Divulgação